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Runner Wannabe

Coisas da corrida de uma pretendente a corredora amadora.

Runner Wannabe

Coisas da corrida de uma pretendente a corredora amadora.

05
Dez17

10Km dos Descobrimentos


Runner Wannabe

 

A semana tinha sido pouco prometedora.

Uma dorzinha decidira alojar-se no meu joelho esquerdo, sem grandes explicações. Dei-lhe descanso (cancelei um treino) e mimo, mas a evolução da situação deixou-me hesitante até Sábado, quando decidi fazer 15 minutos de corrida, para ver se algum “arame” se desprendia! Não sei se foi do frio, mas a “dobradiça empenada”, não se queixou! O sinal era positivo, mas precisava de perceber como reagia durante o resto do dia.

Portou-se bem!

 

O Domingo acordou gelado e eu acordei uma hora mais cedo que o previsto! Não me senti particularmente ansiosa,  preocupava-me mais um frio que iria rapar!

Vesti-me por camadas – parecia o boneco da Michelin - e ainda tive direito a gorro, luvas e cachecol.... Ok, sou friorenta, mas no Domingo estava efectivamente muito frio! Talvez a adrenalina pudesse compensar, mais tarde!

 

Quanto a objectivos, terminar a distância sem o joelho ceder, já seria óptimo!

Fazer um tempo na casa do minuto 5 depois da hora, seria excelente!

 

Com o tempo contadinho ao minuto, lá segui para Lisboa a partir da Lezíria Ribatejana!

Os bravos descobridores portugueses enfrentaram muitas dificuldades e contratempos, nas suas viagens mar fora! Volvidos 500 anos, eu só queria chegar a tempo e a horas do começo dos 10km que homenageavam os feitos destes heróis, homenagem que a Xistarca estendeu aos outros heróis portugueses, os bombeiros, especificamente os bombeiros de Pampilhosa da Serra! Estes homens e mulheres que este ano elevaram o significado de coragem, bravura, humildade e capacidade de sacrifício, perante a tragédia que assolou a sua região e as suas gentes, que foram e são também, a nossa região e as nossas gentes!

Obrigada senhores bombeiros!

 

Foram várias as etapas que tive de fazer até chegar aos Jardins do Império! Todas as “caravelas” que apanhei, atrasaram-se, e os minutos que já iam contados... começaram a contrair!

Eis o cenário: ainda não tinha dorsal, teria de guardar a mochila, fazer o xixi profiláctico e fazer um aquecimento - mais necessário ainda, dado o frio que se fazia sentir!

 

Apanhei a última “caravela” no Cais do Sodré e aproveito para me livrar de algumas camadas de roupa. Para meu contentamento, havia mais corredores a prepararem o equipamento, a colocar dorsais e chips! E se eu achava que ia ser estranho tirar uma das duas calças que vestia...relativizei quando a 2 bancos de mim, uma moça já se tinha descascado até ao top de corrida!

 

Saio em Belém às 9:10, a 25 minutos do tiro de partida para os 10km. Aproveitei a distância até ao local de encontro (junto à meta), para fazer uma corridinha de aquecimento. No entretanto, passo pelo local de partida e que vejo eu? Um conjunto de casas de banho portáteis....sem filas intermináveis, aliás sem filas! Aproveitei e fiz de imediato uma paragem técnica, que de profiláctica tinha passado a necessária! Segui para o local de encontro, onde me aguardava o João Lima e o João Cravo, elemento dos 4 ao km que ainda não tinha tido oportunidade de conhecer pessoalmente! 

 

Dorsal e chip colocado e algumas palavras trocadas, por entre o agitar próprio do “está um frio do caraças!” Despeço-me dos colegas que estavam sensivelmente a 30 minutos de encetar a empreitada dos 21,097, mas eu estava a 5 minutos da minha, tinha de me despachar!

 

Rumei à partida em ritmo de aquecimento e lá encontrei o local certo de onde partir.

Faltavam 3 minutos, percebi que estava com alguma sede...paciência... teria de esperar pelos abastecimentos!

 

Preparei o relógio e o MP3, que se mantém inteiro por causa da fita-cola! :)

Após a agitação de chegar a tempo e a horas à partida, aproveitei o tempo que me restava para me acalmar e concentrar. Eu, a estrada, um pouco de música e o melhor que conseguiria fazer a cada momento! Parece simples, não é? 

 

Deu-se a partida. 

Em treino, o meu km mais lento costuma ser o primeiro e o mais rápido, o último. É normal demorar um pouco a “embalar”, mas depois continuo a evoluir na corrida, roubando alguns segundos, a cada km que passa. Mas no Domingo não sei o que se passou, estava a rolar demasiado depressa! A sensação era a de que ia no ritmo habitual, mas o relógio dizia-me “estás a ir muito depressa!"

 

Tentei abrandar o ritmo, mas não estava a conseguir. Passei aos 5km com 30:56, cerca de 2 minutos mais cedo do que seria normal. O ritmo estava demasiado elevado e pensei que iria levar uma real ”marretada” algures na 2.ª parte da corrida ou então o meu joelho que até ali não tinha dado sinal - da indisponibilidade que demonstrou durante a semana - iria pregar-me uma partida!

 

O abastecimento aos 5km foi muito, muito bem-vindo, estava a precisar de água desde o km 0! Na minha cabeça, o mal já estava feito, agora era aguardar pela hora de começar a “gemê-las” e já não devia faltar muito!

 

O dia estava frio.

Frio mas bonito, com um Sol generoso na luz, mas tímido na temperatura que o vento teimava em  arrefecer ainda mais! Até ao retorno em Alcântara, fomos contra o vento, após o retorno, o vento cooperava! Contudo no início do km 7, umas nuvens escuras começaram a aparecer no meu horizonte mental! Um incómodo que trazia no joelho bom (!) começou a transformar-se numa dor, pouca intensa - ao início -  mas que parecia não ter intenção de levantar ferro e zarpar!

Incrédula, fiquei incrédula! O joelho que me deu trabalho, durante a semana, estava fino, a aguentar-se que nem um bravo...era o seu irmão que tinha decidido fazer birra!

 

Cá estava! Não se tratava de uma "marreta" mas de um Adamastor que avolumava a cada passada dada! Os metros iam passando e comecei a conformar-me com a luta que teria de travar até chegar a "terra firme" (meta)!

 

As dores não estavam a passar. Abrandei um pouco e tentei gerir o melhor que pude o restante percurso. Cruzar com os corredores da Meia ajudou-me a desfocar do que me apoquentava. Procurei pelos colegas de equipa, que passavam em sentido oposto! Alguém chamou por mim – ou então imaginei coisas – e senti uma injecção de energia! O João Lima localizou-me, encorajou-me com um high five – outra injecção de energia!  Durante alguns minutos foi assim que fiz finca pé ao meu Adamastor!

 

Vislumbro o Museu dos Coches. Sabia que estava perto, mas ainda era preciso gerir mais uns 10 minutos de corrida.

Apanhei boleia com uma corredora que ia num ritmo próximo do meu e que parecia estar a tentar dobrar o seu cabo das Tormentas!

As dores não estavam a diminuir, nem era suposto, pois o ritmo estava elevado, mas próprio de último quilómetro! Honestamente já não sabia quem ia de boleia com quem, mas certo é que naquela linguagem de poucas ou nenhumas palavras entre corredores, lá puxámos uma pela outra! 

 

ui que está a doer.jpg

                                                                                 Ui que ía a doer...

 

 

a olhar para a meta 2.jpg

                                                                            " A meta é para ali!

 

Dão-se as últimas gemidelas, aguentam-se as últimas dores e esboça-se o sorriso de quem sabe que fez um bom trabalho!

Terminei dorida, contente e grata por a meta não ser a 100 ou 200m do sítio onde estava!

 

 

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 Olha ela contente!

 

O meu relógio marcava 1:03:07!

Seguiram-se alguns cumprimentos, sorrisos...o típico abanar de cabeça "como é que consegui fazer isto!" Sentia-me satisfeita, mas longe de eufórica...

A “cerimónia” de entrega de medalhas estava a acontecer a uns 40 metros da meta (eh eh), seguiu-se  a hidratação, alongamentos e em todas estas fases, pessoas a distribuírem panfletos!

 

Depois de me proteger do frio, fiquei à espera dos colegas que corriam a Meia e aproveitei para assistir, pela primeira vez, aos pódios de vários escalões.

Já se tinha passado algum tempo desde que tinha cortado a meta e o contentamento tinha sido subtituido por uma "dormência". O animador de serviço informa que os resultados oficiais já estavam disponíveis e lá arranjei curiosidade suficiente para procurar o meu resultado, no site da organização.

Entre as grades que ladeavam a chegada e o pódio, lá estava eu de telemovel na mão a fazer a dita pesquisa...enquanto se processava mais um pódio de um escalão dos 10km. E.... como se fosse uma surpresa absoluta para mim, ao ver que tinha feito afinal 1:03:05 (tempo líquido), comecei a chorar! Aluguei as palmas que batiam aos vencedores do pódio que estava a acontecer e ...ainda chorei mais! Ali fiquei a olhar para o telemovel durante 1 ou 2 minutos, enquanto desidratava pelos olhos! Para rematar aquele momento emotivo  - com um delay de uns 30 minutos - apareceu um moço a oferecer 2 pacotes de leite de soja, que me fez acordar daquele desatino! Limpei o rosto...que depois de 10km de transpiração, umas gramas de sal acumulado na pele, lágrimas e provavelmente alguma mucosidade nasal espalhada nas bochechas, sorri e declinei delicadamente a oferta!

Espero não ter assustado o moço!

 

Pronto finalmente estava a baixar em mim, tudo o que tinha acontecido! eh eh

Agora era aguardar pelos colegas e partilhar com eles a "boa nova"! :)

 

Estacionei-me na chegada em local que pudesse vislumbrar os corredores, as suas expressões, os últimos esforços e os sorrisos! Sítio onde se recebem os últimos incentivos, as últimas palmas, os primeiros abraços e onde alguns vertem as primeiras lágrimas, oh tão bom!  Assistir a estes momentos, tendo agora a noção do que é estar nas suas sapatilhas, é uma experiência completamente diferente! Claro que uma pessoa não é de ferro e como já tinha aberto a "torneira", lá estava eu de lágrima no canto do olho, com as chegadas emotivas, de quem se tinham superado, aguentado e enfrentado os seus Adamastores!

Lá dissipei este estado, ficando à conversa com uma corredora que aguardava a chegada de um corredor....e deve ter sido por estas alturas que passou o João Lima, que ia em modo recordista – para variar! - e deve ter passado a voar, porque não o vi!

Parabéns por mais um recorde, João! :)

Só vi a chegada da Isa, do Vitor e pouco depois do João Cravo!

Parabéns a todos!

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 A armada dos 4 ao km nos Descobrimentos:

João Cravo, Vitor, Isa, João Lima (Meia Maratona) e eu (10k).

 

Retirei uma valente "fatia" ao meu melhor tempo aos 10km (1:08:30), conseguida 2 semanas antes no Corre Jamor, numa corrida com características completamente diferentes da dos Descobrimentos. Por isso relativizo estes 5min:25seg de diferença para a presente marca.

A previsão que tinha feito, seria a de conseguir uma marca na casa do minuto 5. Conseguir uma marca que ficou  perto de descer para o minuto 2, não estava no meu horizonte! Mas aconteceu e estou muito contente!

O ambiente, a energia e a percepção em corrida, é muito diferente da que se vive em treino. Do mesmo modo, a disponibilidade física e mental parecem expandir um pouco mais além do que se conhecia ou se achava ser capaz! 

Agora, resta-me recuperar o "joelho bom" e aguardar pela próxima corrida, que se tudo correr bem, será a S.. Silvestre de Lisboa!

 

Resultados oficiais:

Tempo final: 1:03:48

Tempo de chip: 1:03:05

Tempo aos 5km: 30:56

 

 Boas corridas! :D

 

 

 

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